terça-feira, 31 de agosto de 2021

A IMPORTÂNCIA DA LITERATURA AFRICANA PARA O ENSINO DA HISTORIA DA ÁFRICA

 

“O estudo das obras do continente africano é um meio de corrigir o desvio eurocêntrico que anos de colonização cultural causaram em nosso olhar” (Carta Capital, 2014)

    Sabemos que no processo de ensino e aprendizagem sobre a história da África, são repassadas a nós muitas informações de cunho racista, preconceituoso e extremamente alienado. Muitos professores retratam a África como um lugar pobre e de miséria, e isso sempre foi repassado de geração para geração, mas a África é um continente formado por culturas diversas e que ainda é desconhecida por grande parte da população não só brasileira, mas mundial.

Foi preciso criar uma lei que pudesse garantir o respeito às culturas indígenas e afro-brasileiras, com o objetivo de corrigir mesmo que de forma mínima os equívocos, as inverdades e as brutalidades sobre a história da África.

A Literatura Africana surgiu com o movimento literário denominado Negritude, onde teve um papel revolucionário, rompendo com os valores impostos pela cultura eurocêntrica, apresentando textos e poesias inspiradas nas revoltas que possuíam caráter anticolonialista, tendo como inspiração os conflitos vividos na região, a beleza dos lugares que existem por lá e também o sofrimento social e político que a população passou/passa.

http://cinafrica.letras.ufrj.br/index.php/filmes/angola/127-ruy-duarte-de-carvalho
Ruy Duarte de Carvalho, escritor, cineasta e antropólogo angolano.

  

“Na relação do escritor com a sociedade, o que parece estar na base de qualquer reflexão é o entendimento daquilo que a sociedade espera do escritor, o que a sociedade lhe pede e em que termos e com que sentido o faz. Que pede a sociedade ao escritor? Pede-lhe que seja útil, e julgo que esta fórmula tem o mérito de simplificar o discurso, poupando-lhe redundâncias que quase sempre traem na objetividade e a verdadeira natureza da questão.” 

Essa afirmação de Ruy Duarte de Carvalho nos diz muito sobre a importância da literatura africana para conhecermos a multiplicidade da sociedade e da sua cultura, nas suas poesias encontramos a exposição de problemas, preocupações e situações vividas na Angola, sua poesia servia de denuncia, de arma de luta, de meio de combate contra as injustiças e incompreensões que seu povo vivia.


https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=11022
A arma da casa, Nadine Gordimer
    

            "A arma da casa" é uma literatura de Nadine Gordimer, uma escritora sul africana, que retrata a vida de um casal classe média branca sul-africana tentando se reconstruir pós-apartheid, onde eles tem que reaprender a viver depois de tanto tempo convivendo em regime de segregação racial. As obras de Gordimer podem ser de extrema importância para os alunos do ensino fundamental e médio para compreenderem o que foi, e como foi, o Apartheid na Africa do Sul.

As Literaturas Africana vai além do que nos é retratado nos livros didáticos, então fazer essa leitura pode ajudar na reaproximação dos alunos com as culturas desse continente de modo rico e interessante, e cabe aos professores mostrar aos alunos a verdadeira história do continente através das literaturas escritas pelos próprios conterrâneos.


                                      Confira agora o podcast!

No podcast de hoje iremos falar sobre como foi o Apartheid na Africa do Sul, desde o seu início até o seu declínio, evidenciando pessoas que lutaram contra esse regime de segregação racial.

https://soundcloud.app.goo.gl/kKwYgoDLtCmzQQQ89




quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

VIAGEM PELO BRASIL - SPIX E MARTIUS

"América, essa nova parte do mundo apenas conhecida de poucos séculos atrás, tem sido, desde a época de seu descobrimento, objeto de admiração e predileção da Europa. A feliz situação, a fertilidade e diversidade do seu solo, atraem tanto colonos e negociantes, como pesquisadores científicos." (Spix & Martius, Viagem pelo Brasil, 1817-1820.)

A imperatriz Leopoldina desembarcou aos pés do Morro de São Bento em 6 de novembro de 1817. Artista amador, Frühbeck retratou o momento de forma menos suntuosa do que o clássico registro de Debret (Franz Joseph Fruhbeck/ Acervo IMS/Divulgação)

 A imagem é um retrato de Franz Joseph Frübeck, que veio para o Brasil junto com a princesa Leopoldina. A aquarela é a cena do Rio Colonial, de como ele se encontrava no momento da chegada da arquiduquesa Leopoldina quando desembarcou no Rio de Janeiro há 200 anos atrás.
 Leopoldina veio para o Brasil quando se casou com Pedro de Alcântara, futuro Imperador, esse casamento foi uma aliança estratégica entre a monarquia de Portugal e Áustria para fortalecer os ideais monárquicos absolutistas. Nessa época era normal os casamentos reais servirem como forma de apoio e interesses políticos e não guiados por sentimentos.  
Com a chegada de Leopoldina veio também com ela um conjunto de śabios e pesquisadores, sendo eles cientistas, botânicos, zoólogos e artistas europeus formando assim a Missão Austríaca. Essa expedição tinha o intuito de pesquisar a fundo a natureza brasileira, eles deveriam colecionar espécimes e fazer ilustrações de pessoas e paisagens para um museu que seria fundado em Viena. Essa Missão foi incentivada pela própria Leopoldina, pois desde muito nova ela sempre se mostrou muito interessada por ciências naturais.
Os interesses de pesquisar a fauna e a flora desse Novo mundo se iniciou após a publicação do livro - Viagem às Regiões Equinociais do Novo Continente, feita em 1799 a 1804 - do geógrafo alemão Alexander Von Humboldt (1769 - 1859). A característica principal de sua obra era a representação de tudo o que via da maneira mais detalhada que conseguia.
Entre os participantes da Missão estavam o botânico e médico Von Martius, o zoólogo Von Spix e o pintor Thomas Ender. Essa missão durou cerca de três anos e é considerada a maior expedição científica de exploração da fauna brasileira até hoje. O resultado dessas pesquisas foram publicadas no livro Viagem pelo Brasil de Martius e Spix.
Frübeck expôs seus desenhos da sua viagem ao Brasil em Viena, deixando poucas obras, mas muito ricas em detalhes dos eventos que ele presenciou durante esse período.

domingo, 1 de dezembro de 2019

MEMÓRIAS DE UM COLONO NO BRASIL - 1850 - THOMAS DAVATZ - Capítulo II

“O cafezal exige, não há dúvida, um trabalho apreciável.” (p.51)
Davatz traz em seus relatos o caminho árduo trilhado pelo café, desde a prestativa limpeza dos terrenos, plantação das sementes, das características de uma boa árvore e de seus frutos proveitosos, até o transporte do grão aos negros.

Como uma tentativa de simplificar e elucidar o trajeto feito pela economia brasileira, o economista e historiador Caio Prado Jr. escreve em 1970 a respeito dos ciclos econômicos, desde o início da colonização até o século XX, deixando um referencial teórico para o estudo acerca da história econômica do Brasil.
Até o século XIX, esses ciclos podem ser basicamente divididos em: Ciclo do pau-brasil, árvore típica da região litorânea, na qual, pelas mãos indígenas é que se tinha a principal extração; Ciclo da cana-de-açúcar, inesquecível pelo uso dos engenhos e mão-de-obra escrava africana; o ciclo do ouro, efervescente em Minas Gerais; e o ciclo do café, grande impulsionador da economia brasileira no século XIX e sinalado   pela entrada em massa de imigrantes para o trabalho nas lavouras, o qual Thomas Davatz dedica especial atenção em suas memórias. 
O imigrante suíço descreve em seus relatos o trabalho necessário para uma plantação vistosa que arredasse lucros festivos “Para obter uma bonita lavoura dispõem-se as mudas em filas retas e separadas entre si por intervalos de doze pés no mínimo. Com bom tratamento, isto é, com a carpa assídua do terreno, arrancando-se os capinzais e ervas, que são puxados para o redor de cada arbusto, pode o cafezal começar a frutificar já no quarto ano.” (p.50)

No caminho trilhado pelo café, haviam ferramentas como os lençóis de café, peneiras, cestas uteis ao trabalho do homem colono e contribuíam para o bom andamento da lavoura. Já a medição do café, exigia o auxílio de um membro da diretoria, que realizava as atividades de verificação, contagem e registro. Daí passava-se ao transporte pelos negros em carros de boi. 
Todavia, apesar dos cuidados na plantação, um imprevisto como o mau tempo, prorrogado por alguns dias, poderia levar a perda do sumo encontrado nas cerejas de café, acarretando uma má colheita e prejuízo notório principalmente ao colono, que já estabelecido por contrato, desta safra não recebe metade do produto líquido.

Confira agora o podcast!
O podcast de hoje é sobre a chegada do café até o Brasil e todo o seu processo desde a plantação até a exportação, também relato sobre as experiências que vivenciei no no Museu do Imigrante, que mostra desde a chegada do colono até a separação da família.
https://soundcloud.com/luizaavanci/origem-do-cafe-e-fazenda

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

MEMÓRIAS DE UM COLONO NO BRASIL - 1850 - THOMAS DAVATZ - Capítulo I


 "Perdoe-me, pois o leitor benigno se o detive longamente antes de familiarizá-los com o tratamento imposto aos colonos. Cumpre-me, além de tudo, lançar uma advertência contra a mania fútil e leviana de se fugir para outras terras. Assim sendo, devo pintar, com meus parcos recursos, o país para onde se volvem tantos anseios e aspirações."
(DAVATZ, T. Memórias de Um Colono no Brasil (1850). São Paulo: Ed. Martins, 1946, p. 70)
Livro: Memórias de Um Colono, Thomas Davatz.

O livro Memórias de Um Colono no Brasil é escrito por Thomas Davatz, que foi um suíço que veio para o Brasil em busca de melhoria de vida, onde foi contratado para trabalhar na fazenda de Ibicaba do Senador Vergueiro, mas acaba acontecendo muitas divergências entre os colonos e o senador, em relação ao trabalho que eles exerciam lá, Davatz acaba conseguindo uma licença para voltar ao seu país. Esse livro é publicado quando Thomas volta para a suíça e tem como objetivo apresentar através de depoimentos, dele mesmo, como era as condições do trabalho nas fazendas. O primeiro capitulo do livro é bem explicativo sobre as plantações, os alimentos que aqui era plantado, a culinária assim como também das estações/tempo, diferenciando as coisas daqui com a do seu país. É importante destacar a importância desse texto como fonte documental para estudos da colonização de São Paulo, mesmo sendo tão rico em informações é um livro pouco conhecido entre os estudiosos.

Nicolau Pereira de Campos Vergueiro (1778-1859),  fazendeiro de café e político luso-brasileiro.

Nicolau de Campos Vergueiro foi o primeiro a implantar em sua fazenda o sistema de parcerias que foi o que vigorou naquela época nas fazendas paulistas. No contrato colocava que os senhores pagariam as despesas das famílias imigrantes, e ao chegar aqui teriam que trabalhar para pagar essa dívida, e só após quitada é que eles passariam a dividir o lucro com os proprietários da terra. Porém, o autor elenca no texto que em São Paulo essa imigração aconteceu de forma diferente, pois os senhores acabam dando praticamente o mesmo tratamento que da aos escravos à esses homens livres, a condição de trabalho não era as prometidas em contrato, isso gera uma revolta nos colonos e a partir daí é que começa a acontecer mudanças que satisfazem ambas as partes.  

https://pesquisaitaliana.com.br/viagem-de-navio-entre-a-italia-e-o-brasil/
Navio que levava os imigrantes (mostra a quantidade de europeus que vieram para o Brasil)
A transição do trabalho escravo para o trabalho livre começa com a proibição do tráfico negreiro e com o governo barrando a expansão do trabalho escravo, os fazendeiros acabam tendo dificuldade em encontrar uma mão de obra barata para suprir as suas necessidades, com essa falta de escravos para trabalhar na lavoura começa o incentivo da imigração para o Brasil, não com o intuito de colonizar a terra mas para substituir o trabalho escravo para o imigrante, o emprego da mão de obra imigrante europeia acabou sendo a alternativa mais barata e viável para a ocasião.

Confira agora o podcast!
O podcast de hoje propõe uma discussão considerando o dia da consciência negra, refletindo sobre a escravidão e cotas raciais no Brasil, no âmbito de refletir a especialidade deste dia e a importância de ser relembrado e reafirmado!